A segurança pública é, por definição constitucional, um dever do Estado e um direito de todos. Quando uma autoridade policial, investida de poder e de armas pelo povo, utiliza seu “lugar de fala” para carimbar o espectro ideológico de um estado ou de sua gestão, ela não está apenas emitindo uma opinião: ela está rachando os alicerces da imparcialidade. Onde se espera o acolhimento soberano da dor alheia, a fala política emerge como um filtro excludente que coloca em dúvida a quem o braço da lei realmente protege.
1. A Miopia Ideológica e o Dever de Imparcialidade
O servidor público de carreira — e, mais ainda, o de segurança — é pago para servir ao cidadão, não a um partido ou a uma “ala”. Quando uma autoridade afirma que “aqui somos de direita” (ou de esquerda), ela levanta um muro invisível no atendimento. O cidadão que sofre violência, seja ele leitor do “Pravda” ou da “Revista Oeste”, não busca um militante fardado; busca um profissional técnico, sensível e apolítico. A grandeza da função pública reside justamente na capacidade de enxergar o ser humano antes do seu título de eleitor.
2. O Estado Laico e Apartidário
A laicidade do Estado não se restringe à religião; ela se estende à ideologia. Uma polícia que incorpora o discurso de extremistas — que, por vezes, são os próprios geradores da violência que a autoridade deveria combater — torna-se refém de sua própria retórica. Se o Estado deve ser apartidário, seus símbolos e chefias devem exalar neutralidade. A eficácia do trabalho policial depende da confiança da população; uma vez que essa confiança é contaminada pelo viés político, o resultado é a suspeição constante sobre a conduta e as decisões operacionais daquela autoridade.
3. O Risco da Conduta Seletiva
O que esperar da eficácia de um trabalho quando a autoridade parece mais preocupada em sinalizar virtudes ideológicas do que em pacificar conflitos? O risco é a seletividade. Uma autoridade ideologizada pode, consciente ou inconscientemente, ser mais célere em punir “adversários” e mais leniente em acolher “aliados”. Essa é a antítese do que se espera de uma democracia. A soberania do Estado deve estar acima das paixões de gabinete e das bolhas de internet.
Autoridades passam, instituições ficam. O policial que se torna militante esvazia a grandeza de seu juramento. No exercício da função, o silêncio ideológico é a voz mais alta do respeito ao cidadão. Quem se senta na cadeira de comando deve lembrar que o imposto que paga seu salário não tem cor partidária, e a bala que fere o inocente não pergunta em quem ele votou. É preciso resgatar a polícia para o povo, e não para o palanque.


